Alexandre Bastos Baptista

 

 

 

As funções das glândulas adrenais são alvo de questionamentos já há muito tempo. Embora em 1563 o anatomista italiano Eustáquio tenha descrito a presença de dois órgãos semelhantes a glândulas nos polos superiores renais, suas funções ainda permaneceram elusivas por um longo tempo. Em 1716, a Academia de Ciência de Bordeaux anunciou um prêmio para o melhor ensaio sobre o tema “Qual a importância das adrenais?”. Nenhum dos trabalhos enviados foi tido como merecedor da premiação pelo avaliador, o notável filósofo Montesquieu, quem afirmou: “Talvez a sorte nos dê em algum momento o que todos os nossos esforços não foram capazes de alcançar” (LILJESTRAND, 1950, tradução nossa).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Posteriormente, em 1854 o anatomista alemão Kölliker afirmou, em sua revisão sobre o assunto, que, apesar das funções das adrenais serem ainda desconhecidas, em alguns aspectos grandes avanços tinham sido realizados, notadamente a descoberta da presença das adrenais em vários grupos de animais, além dos detalhes estruturais destas. Kölliker classificou as adrenais como glândulas aductais, o que atualmente denomina-se de órgãos endócrinos, assumindo existir alguma cooperação destas com o sistema nervoso (LILJESTRAND, 1950).

 

Finalmente, em 1855, um médico inglês, Thomas Addison, publicou “Sobre os Efeitos Constitucionais e Locais da Doença da Cápsula Suprarenal”. Trata-se de um trabalho sobre uma condição rara, de curso fatal, caracterizada por anemia, fadiga e fraqueza generalizadas, alterações do sistema digestivo e escurecimento da pele, presentes em pacientes cujas adrenais haviam sido destruídas. A publicação constitui uma das contribuições básicas ao nosso conhecimento atual sobre secreção endócrina em geral e do papel das adrenais em particular. O trabalho de Addison influenciou o brilhante cientista Charles-Edouard Sequard, considerado um dos “pais” da neurologia moderna, quem demonstrou, em 1856, ser a adrenelectomia um procedimento fatal e conjecturou que as adrenais secretavam os fatores sustentadores da vida, atualmente denominados hormônios (BROWN-SEQUARD, 1856).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A partir deste ponto, experimentos demonstraram a importância do córtex adrenal em contraposição à medula adrenal, constituindo basicamente dois diferentes órgãos combinados. No final dos anos 20 e início dos anos 30, alguns pesquisadores americanos obtiveram sucesso em extrair do córtex adrenal um extrato razoavelmente puro que, quando injetado em animais adrenalectomizados, prolongava suas vidas e também exercia um efeito benéfico em pacientes portadores da doença descrita por Addison. A este composto deu-se o nome de “cortina”, devido à sua origem adrenocortical, entretanto foi só em 1934 que Edward Kendall, na Clínica Mayo (Rochester, EUA) conseguiu preparar, a partir de extrato cortical, a substância, a princípio acreditada como pura, em forma de cristal. Experimentos posteriores mostraram que Kendall, na verdade, tinha sido capaz de produzir uma mistura de substâncias diferentes, intimamente relacionadas, e seu trabalho constituiu os primeiros passos na produção de uma série de substâncias corticais, realizadas pelo próprio Kendall e também por Tadeus Reichstein (Basel, Suiça) por Pfinner, na Universidade de Columbia (EUA) e por Cartland e Kuizenga, trabalhando na Upjohn, Inc. (EUA), inclusive a então chamada substância E, atualmente conhecida como cortisona. Reichstein foi então capaz de demonstrar o efeito androgênico de uma das substâncias isoladas, inferindo que as substâncias adrenocorticais pertenceriam ao grande e importante grupo de substâncias esteroides. Ao todo, os quatro grupos de pesquisadores isolaram, purificaram e determinaram a estrutura química de 29 glicocorticoides. Phillip Hench, colaborando com Kendall, também da Clínica Mayo, iniciou estudos clínicos envolvendo a cortisona no tratamento da artrite reumatoide, obtendo excelentes resultados (MILLER, 2012; LILJESTRAND, 1950).

 

Em 1932 Harvey Cushing descreveu oito pacientes com quadro clínico decorrente de “basofilismo hipofisário”. Seis destes pacientes apresentavam pequenos adenomas hipofisários basofílicos e manifestações clínicas de excessiva secreção adrenocortical de cortisol. O epônimo “Síndrome de Cushing” foi cunhado abrangendo a constelação de alterações clínicas e químicas resultantes da excessiva exposição a concentrações excessivas de glicocorticoides (FELDMAN, 2004).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os trabalhos pioneiros de Kendall, Reichstein e Hench lhes renderam, conjuntamente, o prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina de 1950 (LILJESTRAND, 1950).

 

Os próximos 20 anos, após o isolamento e caracterização de esteroides humanos, foram ocupados por experimentos visando entender as diferenças fisiológicas e bioquímicas e as inter-relações dos vários hormônios esteroides. Central para estes avanços foi a introdução, na década de 1940, de isótopos usados na marcação e identificação de metabólitos. Estes estudos constituem a base do nosso conhecimento atual das vias de transformação metabólica dos esteroides nos diversos tecidos de mamíferos (ESTABROOK, 2005).

 

Uma descoberta fundamental foi realizada em 1945 por Bloch, o qual demonstrou que o colesterol foi metabolizado em pregnanediol quando uma mulher no 8º mês de gravidez recebeu deutério colesterol. Este experimento in vivo demonstrou claramente que o colesterol seria o precursor de hormônios esteroides biologicamente ativos nos seres humanos (ESTABROOK, 2005).

A descoberta dos hormônios esteroides, sua caracterização estrutural, determinação de suas funções fisiológicas e definição das reações bioquímicas que catalisam as transformações sequenciais em suas vias de produção são a base de nosso presente conhecimento desta importante classe de lipídios. Os desafios experimentais que tiveram de ser superados na definição da enzimologia destas reações foram formidáveis (ESTABROOK, 2005).

 

Percorremos um longo caminho desde a primeira descrição das adrenais por Eustáquio. Parece-nos que mais que a “sorte” prevista por Montesquieu, a curiosidade, rigor científico e o trabalho árduo destes pioneiros nos proporcionaram as bases para os avanços extraordinários das últimas décadas tanto na compreensão quanto tratamento das disfunções adrenais em humanos e em animais. Entretanto as adrenais ainda nos desafiam, como na compreensão das disfunções enzimáticas da esteroidogênese e seus efeitos no acúmulo de precursores do cortisol, levando a quadros muitas vezes ainda não compreendidos. Cabe agora a nós darmos prosseguimento ao trabalho iniciado há tantas décadas, contribuindo com mais peças deste fascinante quebra cabeças que duas pequenas glândulas, em sua extraordinária complexidade, nos propõe.

 

M.V. Alexandre Bastos Baptista, 2013

 

 

REFERÊNCIAS:

-Brown, S; et al. Guidelines for the identification, evaluation, and management of systemic hypertension in dogs and cats. J. Vet. Intern. Med.; v.21: p.542-558. 2007

-Estabrook RW. Steroid hydroxylations: a paradigm for cytochrome P450 catalyzed mammalian monooxygenation reactions. Biochem Biophys Res Commun. v.338(1): p.290-8,  2005
-Feldman EC, Nelson RW b. Canine hyperadrenocorticism (Cushing’s syndrome). In: Feldman EC, Nelson RW, eds. Canine and feline endocrinology and reproduction. 3rd ed. WB Saunders Co, p.252–357, 2004

-Liljestrand G, Presentation speech as the 1950 Nobel Prize in Physiology and Medicine was awarded to Edward Kendall, Tadeus Reichstein and Philip Hench.  Disponível online em http://www.nobelprize.org/medicine/laureates/1950/press.html. Acesso em nov. 2012

-Miller, W.L. A brief history of adrenal research: steroidogenesis, the soul of the adrenal. Mol. Cell. Endocrinol. (In Press). 2012

 

Montesquieu:

Em 1716, a Academia de Ciência de Bordeaux anunciou um prêmio para o melhor ensaio sobre o tema “Qual a importância das adrenais?”. Nenhum dos trabalhos enviados foi tido como merecedor da premiação pelo avaliador, o notável filósofo Montesquieu, quem afirmou:

“Talvez a sorte nos dê em algum momento o que todos os nossos esforços não foram capazes de alcançar” (LILJESTRAND, 1950, tradução nossa).

Thomas Addison

Em 1855, um médico inglês, Thomas Addison, publicou “Sobre os Efeitos Constitucionais e Locais da Doença da Cápsula Suprarenal”. Trata-se de um trabalho sobre uma condição rara, de curso fatal, caracterizada por anemia, fadiga e fraqueza generalizadas, alterações do sistema digestivo e escurecimento da pele, presentes em pacientes cujas adrenais haviam sido destruídas (Hipoadrenocorticismo). A publicação constitui uma das contribuições básicas ao nosso conhecimento atual sobre secreção endócrina em geral e do papel das adrenais em particular.

Harvey Cushing

Em 1932 Harvey Cushing descreveu oito pacientes com quadro clínico decorrente de “basofilismo hipofisário”. Seis destes pacientes apresentavam pequenos adenomas hipofisários basofílicos e manifestações clínicas de excessiva secreção adrenocortical de cortisol. O epônimo “Síndrome de Cushing” foi cunhado abrangendo a constelação de alterações clínicas e químicas resultantes da excessiva exposição a concentrações excessivas de glicocorticoides (FELDMAN, 2004).

As Glândulas Adrenais – uma breve história dos primeiros séculos

 

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