ALOPECIA X NA RAÇA SPITZ ALEMÃO

NOVOS DADOS E DIRETRIZES PARA CRIAÇÃO E VENDA DE FILHOTES

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em julho de 2017 ultrapassamos os 180 pacientes de Alopecia X tratados. A doença é bastante frequente na raça, com cerca de 15% dos indivíduos afetados, estando presente em praticamente todas as linhas atuais. Como é sabido, a doença ainda não é perfeitamente compreendida, algumas informações na literatura são conflitantes e os tratamentos nem sempre são bem sucedidos (apesar do grande avanço nos últimos anos). Visando tentar reduzir a incidência da Alopecia X na raça resolvi então compartilhar com vcs algumas informações decorrentes da minha experiência com a doença  e estabelecer algumas Diretrizes de Criação e Venda.

 

Atualmente sabemos que a doença é hereditária. A doença é geralmente considerada herança autossômica recessiva (visto que padreadores não afetados podem ter filhas afetadas e pela doença pular gerações).

 

Vamos aos números:

- Destes 190 casos suspeitos, 6 apresentavam na verdade Alopecia Pós-Tosa e 2 Hipotireoidismo (sim, muitas vezes os quadros podem se assemelhar). Os outros casos foram confirmados como Alopecia X;

- Destes 182 casos de Alopecia X apenas 6 exemplares tiveram relatadas a 1ª muda intensa aos 4 meses. Os demais apresentaram ou uma muda muito leve (geralmente só com perda de pelo nas laterais do focinho) ou, na sua maioria, nenhum sinal da 1ª muda (e muitas vezes referidos como os mais peludos das ninhadas);

- a idade para o aparecimento de falhas na pelagem teve variação de 7 meses até 26 meses, tendo a grande maioria apresentado os 1os sinais entre os 11 meses e 2 anos de idade;

- 2 vezes mais machos que fêmeas afetados;

- 80% dos machos afetados e 100% das fêmeas afetadas apresentaram aumento na 17OH Progesterona (o que sugere um possível desvio da produção hormonal adrenal para outros hormônios adrenais, envolvidos na Alopecia X, como a Androstenediona);

- Poucos exemplares que buscaram o tratamento não eram castrados (o que per si não sugere uma relação direta entre a Alopecia X e a castração precoce, visto que uma grande parcela dos cães da raça são castrados. Entretanto a castração realizada pós aparecimento da Alopecia X reverte o problema em cerca de 50% dos casos - um dos meios terapêuticos que ser perde nos animais já castrados precocemente). A predileção da doença por indivíduos machos é possivelmente decorrente de diferença entre receptores hormonais na pele de machos e fêmeas ou outra característica que interage de forma distinta com o desbalanço causado pelo(s) gene(s) envolvido(s). Entretanto atendi recentemente um caso que sugere herança ligada ao sexo (ao cromossomo X), com grandes implicações para nossa compreensão da doença e para as diretrizes de criação:

CASO LUIGGI

O Luiggi nasceu fruto de um "acidente"entre o pai Labrador Retriever e a mãe Malamute do Alaska. Aos 5 anos iniciou quadro de alteração de textura em todo o tronco e áreas de rarefação pilosa em pescoço e coxas posteriores (alterações típicas da Alopecia X), sem sinais sistêmicos que pudessem sugerir outras endocrinopatias. Ao exame dermatoscópico comprovou-se alterações típicas da Alopecia X.

Atualmente, após a castração, está em franca recuperação.

O que significa este caso?

Como a doença existe em Malamutes mas não em Labradores, a Alopecia, neste caso, só pode ter sido herdada da mãe. Como sabemos que a herança é recessiva, para ela ter se manifestado no Luiggi sendo apenas a mãe portadora o modo de transmissão só pode ser ligado ao sexo - no caso herança recessiva ligada ao X. As implicações deste caso, se assumirmos que a doença é a mesma nas raças Malamute e Spitz, é que padreadores que tiveram só filhos machos afetados não podem ser implicados na transmissão da doença, que pode ter sido herdada apenas da matriz. Entretanto quando nascem fêmeas afetadas a doença tem que ter sido herdada tanto do pai quanto da mãe:

Claro que apenas 1 caso não é suficiente para estabelecermos com certeza o modo de transmissão. Há mutações que podem ter levado à doença neste caso específico, bem como o modo de transmissão pode ser diferente nas diversas raças afetadas. Mas, sem dúvida, é um caso interessante e que merece nossa reflexão!

ALOPECIA X - DIRETRIZES PARA A CRIAÇÃO DA RAÇA SPITZ ALEMÃO

 

Tendo em vista estas informações e o conhecimento atual sobre a doença estabeleci algumas recomendações para a criação. Acredito que possamos reduzir a incidência na criação e a venda de exemplares afetados a partir das seguintes diretrizes:

 

- machos e fêmeas só deverão ser acasalados após 2 anos de idade. Caso não tenham apresentado a 1ª muda recomendo a retirada do exemplar da reprodução;

- matrizes de exemplares afetados são portadoras e idealmente deverão ser retiradas da reprodução;

- padreadores de fêmeas afetadas são portadores e idealmente deverão ser retirados da reprodução.

- todas as filhas de padreadores que tiveram filha afetada são provavelmente ou portadoras ou afetadas.

 

 

SOBRE A VENDA DE FILHOTES

 

Uma das grandes frustrações para quem adquiri um exemplar da raça Spitz Alemão é a Alopecia X. A condição ainda é desconhecida pela maioria dos Médicos Veterinários, o que torna seu diagnóstico complicado. É fundamental que os criadores eduquem os futuros Tutores sobre a doença, seus primeiros sinais, evolução, etc., e que sempre encaminhem a um Médico Veterinário - que conheça a doença - seus Clientes, ao terem conhecimento de qualquer alteração de textura da pelagem, não realização da 1ª muda ou retardo no crescimento após tosa.

 

Idealmente a venda de exemplares deveria ocorrer após a 1ª muda, mas sei que os Tutores ainda buscam exemplares mais novos (além da dificuldade em vender um exemplar em plena 1ª muda). Isto requer um esforço conjunto dos Criadores para educarem os futuros clientes (mas sei que é difícil).

 

Recomendo a castração apenas após a maturação sexual (1º cio para fêmeas e aproximadamente 6 meses para macho) em exemplares que passaram pela 1ª muda. Aqueles que mantiverem a pelagem intacta ou apresentarem apenas uma muda leve deverão permanecer inteiros (ou serem castrados por vasectomia/laqueadura) até completarem 2 anos. Contratos de Castração, adiamento na entrega do Pedigree, etc., são substitutos possíveis à castração precoce, assim como a laqueadura e vasectomia. O objetivo é não perdermos a possibilidade de proceder à castração somente após a manifestação da Alopecia X (já que a repilação pós-castração ocorre em mais de 50% dos exemplares afetados).

 

A raça, no Brasil, já começou um sério declínio tanto nas características raciais quanto na saúde. Popularização e valores elevados atraíram criadores puramente comerciais que não se preocupam com adequação ao padrão e saúde dos exemplares criados. Está nas mãos dos Criadores Éticos,  com o auxílio de nós Médicos Veterinários, a preservação da saúde racial e física da raça. Minha visão é que no decorrer dos próximos anos teremos um declínio progressivo na popularidade – serão justamente os Criadores Éticos e comprometidos com a saúde do seu plantel que se destacarão cada vez mais e perseverão. A Alopecia X é o “grande mal” apresentado pela raça do ponto de vista médico – até que saibamos mais e desenvolvamos testes genéticos para identificar os portadores só diretrizes rígidas de criação poderão reduzir o problema.

 

Médico Veterinário Alexandre Bastos Baptista 

No quadro podemos ver a provável herança autossômica recessiva da Alopecia X. A grande dificuldade é que, por tratar-se de herança recessiva pais aparentemente normais (como no exemplo 6) podem ser portadores - se acasalamos 2 portadores teremos 25% de chance de nascerem exemplares afetados e 50% de chance de nascerem portadores...

Endocrinologia

Veterinária.com 

M.V. MSc.
Alexandre Bastos Baptista

 

 

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